terça-feira, 12 de outubro de 2010

Bons tempos esses em que a dona Edir cozinhava todo domingo pra gente...

Compromisso familiar: ninguém esquece do rosbife!

A palavra compromisso - sinônimo de convenção, obrigação, pacto - carrega uma carga de responsabilidade, certo? Não para uma família composta por administradores de termas, filósofos, músicos, designers, jornalistas, psicólogos, futuros cineastas e indefinidos. As figuras se dividem nas mais variadas categorias. Tem a que sai pra comprar o carro, rezando pra não pedirem a carteira de motorista na hora do test drive, pois seus documentos – identidade e habilitação – estão temporariamente desaparecidos. Tem a outra que foi escalada para ser mesária nas eleições presidenciais e na noite anterior encheu o pote, aparecendo quase dez da matina, tranqüila, pra descobrir que o castigo é uma multa de um salário mínimo. Aquela que já perdeu o celular na escola, no ônibus, na casa de uma amiga, na praia e já esqueceu até em algum lugar que ela já se esqueceu qual foi. O clássico que marca de devolver o carro de tarde e aparece no dia seguinte, com a mesma cueca de três dias atrás. Ainda a que fica com nota vermelha e se esquece de ir à escola no dia das provas de recuperação. Uma figura que volta no final do dia de táxi, deixando o carro na garagem do trabalho porque esqueceu que foi trabalhar de carro – essa é a melhor! Tem a que dá beijo no mecânico, esquecendo as regras de relacionamento social com prestadores de serviço. Tem a participação especial de uma agregada que tenta ir a uma Rave, esquematiza de deixar o bebê com a irmã do marido, mas esquece de deixar as mamadeiras. O que larga o celular dentro do carro e tortura a namorada dizendo que ela perdeu. Ah, e a matriarca da família, que faz a cobertura dos principais acontecimentos em novelas e telejornais com o intuito de manter a família atualizada. “Sabe quem morreu? Tadinho, tão boa gente, eu gostava dele...” Existe de tudo nessa família, meus queridos. E como toda regra tem a exceção, tem também a que anota o dia e horário de todos os filmes bons que vão passar na tv à cabo, faz a lista de compras todas as semanas, fica de plantão na cozinha só pra presenciar a hora em que alguém vai esquecer de guardar algo na geladeira e ainda coloca o desodorante com a marca virada pra frente só pra denunciar se alguém usou na sua ausência. Tem disso também, fazer o quê! Só tem um compromisso que ninguém esquece, não precisa nem anotar. É o famoso almoço de domingo. Os mais novos integrantes da trupe não entendem que compromisso é esse que a família inteira segue há anos, sem precisar marcar: o almoço no Humaitá. Pode faltar um, faltar outro, mas o grosso desse pirão está sempre lá, pra saber das últimas novidades. E quem é bobo de perder o rosbife da Dona Edir?

Essa vai pra tia Célia. Em breve sai do forno uma quentinha sobre a tv nova que desliga misteriosamente...

Um baquinho, um violão. Uma cômoda, um colchão...

A narrativa de uma família que saiu atrás de uma cama e voltou com duas camas, uma mesa de jantar e um banquinho – que juraram ser presente para um bebê de cinco meses...

Comprar movéis não parece ser uma situação inusitada até quatro pessoas resolverem começar uma busca por uma cama...
A pessoa quer comprar uma cama e pede uma opinião para a família. Entra no carro, pega o namorado e vai buscar a mãe - que neste contexto eleva-se automaticamente à categoria de sogra. Em seguida vão ela, o namorado e a mãe, ou sogra, como você achar melhor, pegar a irmã. Agora já são a tal, o namorado, a mãe e a irmã no carro, partindo para Teresópolis, onde fica a tão esperada loja de móveis. Imagina a situação desse sujeito. Adiantando um pouco o rumo desta prosa chegamos ao carro, já na volta desta aventura. Quem queria comprar a cama, comprou. A irmã, que foi apenas para dar uma opinião, comprou uma mesa de jantar. Sim, e com oito lugares, para caber a mãe, a irmã, a sogra, o papagaio e o periquito. Isso se mesa em questão coubesse na sala do apartamento. Mais tarde ficamos sabendo que não foi o caso. A terceira pessoa, a mãe, que foi praticamente arrastada para um passeio em Teresópolis – as pessoas insistem em não a deixar acompanhar a novela sem interrupções – comprou uma cama também. Ah, e o colchão, claro, já que não agüentava mais se sentir uma massa de empada entrando na forma cada vez que tentava cochilar nos intervalos da programação. A mais nova integrante da família, um pingo de gente, que nessa altura ainda nem conseguia se sentar, ganhou sua primeira mobília: um banquinho de madeira, brinde do vendedor, que já devia estar se auto-intitulando melhor amigo da família. As oito pessoas que cabem na mesa neste momento recebiam um telefonema avisando que haverá almoço de estréia no primeiro domingo depois que a mesa chegar. As outras que não também - lembrando que tem sofá, pufe e até banquinho disponíveis. Poderíamos continuar conjugando em quase todas as pessoas o pretérito perfeito do verbo comprar se a quarta pessoa, o namorado, fosse da família. Felizmente é apenas um agregado. Se bem que não dou três meses pra ele aparecer com uma cômoda nova, ou ao menos uma prateleira. Isso porque o personagem principal desta narrativa, a tal que inventou de comprar móveis, adora cuidar da decoração alheia. Se é que vocês me entendem!

sábado, 9 de outubro de 2010

Hoje foi dia de shopping pra dona Sonia, então vai aí uma crônica sob medida...

Teste Vocacional

Se a minha mãe tivesse feito teste vocacional, não tinha erro. Daria guarda de trânsito “olha aquele ali na pista de ônibus, fechou o outro, não sabe dirigir...”, contadora de histórias “de primavera, quando as crianças tinham lá pros seus dez anos, chovia fininho...” ou guia turística. Outro dia, durante um passeio no shopping em um sábado chuvoso (programa de índio), tivemos certeza de que ela teria se saído bem na terceira opção. “À sua esquerda, Ecletic” – dizia – “vestidinhos, roupinhas pra bater, tem tudo aí. À direita, Dress To. Tudo muito curto, só pra adolescentes. Ao final do corredor você já pode avistar a Cantão. Ah, mas nos últimos anos mudou muito, hoje é visitado pela elite, tudo caro. Opa, logo ali, a Zara. Vamos entrar! Sapato? Tá precisando? Não? Então vai experimentar pra quê?” Falava das lojas como quem descreve a Lapa ou o Leblon, destacando suas principais atrações, público-alvo e poder aquisitivo. Mas você tem dois minutos pra ouvir, olhar e registrar as informações, exatamente como naqueles confortáveis ônibus turísticos, onde você está diante do paraíso e tudo que consegue fazer é encostar o nariz da janela e lamentar não poder desfrutar tudo aquilo. Tudo bem, sempre tem aquela sagrada meia horinha pra bater perna livremente, mas exatamente como quando se contrata o serviço de uma agência de viagem, quem define o lugar não é você - e ela definiu que seria a Zara. Mas não se trata de viagem perdida, temos que levar em conta o tal custo x benefício e aproveitar aqueles “extras” incluídos no pacote. Quando o roteiro é shopping e a guia é sua mãe, você sempre sai com uma sacolinha de presente. O meu foi um casaquinho, claro. No fim da viagem você tem a sensação de ter visto dezenas de lugares, mas conhecido cada um deles muito superficialmente. Hora de colocar em prática aquela tática espertinha e egoísta de atrasar a volta de todo mundo. Mas com ela não cola. “Vou indo pro carro esperar por vocês lá”. Assim, quem consegue? Vamos, Gabi!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Open Blog

Adoro reparar as pessoas.

Perco o amigo, mas não perco a piada. Comigo, vacilou virou crônica.

Dedico esse blog aos queridos membros da minha família - muito unida, mas também muito ouriçada.

Pro open blog, trago um trechinho (lindo) do livro “Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo.

Apareçam sempre!

"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. (...) O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano - quem diria? - solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este, o mais gordo e generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero ou do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e a cebola. Não se envergonhe se chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza (...).

Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe "Família à Oswaldo Aranha", "Família à Rossini", "Família à Belle Meunière" ou "Família ao Molho Pardo" - em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é "À Moda da Casa". E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras, apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada - seriam assim um tipo de "Família Diet", que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Há famílias, por exemplo, que levam muito tempo para serem preparadas. Fica aquela receita cheia de recomendações de se fazer assim ou assado - uma chatice! Outras, ao contrário, se fazem de repente, de uma hora para outra, por atração física incontrolável - quase sempre de noite. Você acorda de manhã, feliz da vida, e quando vai ver já está com a família feita. Por isso é bom saber a hora certa de abaixar o fogo. Já vi famílias inteiras abortadas por causa de fogo alto.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia-a-dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança (...). Por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete".

Quem sou eu

Somos um casal que há 8 anos...

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